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Que O PODER SUPERIOR continue te concedendo o direito de reconhecer, aceitar e realizar a Vontade DELE, em todas as suas épocas e lugares, para que só assim, possas continuar desfrutando destas Dádivas de renovados dias Limpos, Serenos e repletos de Saúde e Paz!
Abraços e TAMUJUNTU.
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domingo, 14 de setembro de 2014

EMOCIONAL x RACIONAL

Saudações, meus queridos e minhas queridas!

Espero que estejam todos desfrutando se muita saúde e paz, juntamente com todos os que lhes cercam.

Aqui, comigo, tudo tranquilo, apesar dos probleminhas familiares que sempre acontecem.

Recentemente um de meus irmãos havia recaído e isso foi um transtorno infernal. Para quem acompanha meu blog, sabe um pouco de minha história de de minha família. Este irmão que estou falando, ele estava "limpo" há algum tempo e "vacilou", descuidou, usou.  Começou com as insanidades lá onde ele estava morando e a esposa não mais aguentou. Daí me procuraram para que eu pudesse ajudá-lo. Eu havia dito que ele não estava querendo se tratar, pois o comportamento e as atitudes dele falavam por sí.

Após um tempo, resolvi trazê-lo para perto de mim e coloquei-o numa comunidade terapêutica que estou sempre presente. Lá ele permaneceu tranquilo por 5 meses, quando, repentinamente, surge uma chamada da Justiça, para comparecimento dele lá onde ele morava. (Digo repentinamente, mas já sabíamos que a qualquer hora ele seria chamado).

Pois bem. Ele teve que ir lá. Então, programou-se para retornar à comunidade, onde pretendia passar mais 4 meses e terminar o "tempo sugerido" para tratamento.

Quando ele estava para viajar, eu tive uma conversa com ele e falei sobre esta viagem que ele estava indo, sobre o propósito da mesma e falei até sobre a possibilidade dele ficar por lá mesmo, sem necessariamente ter que voltar para a comunidade aqui, pois lá onde ele reside também tem comunidades terapêuticas, bem como tem grupos de NA e AA próximos.

Porém, ele me disse que pretendia voltar para a CT onde estava se tratando, até mesmo porque foi o local onde ele conseguiu passar mais tempo "limpo". 

Ele viajou. Acho que não passou nem 1 dia "limpo". Pelo que consegui levantar, acho que ele já saiu daqui recaído. Mas como eu não tenho como provar isso (e nem me cabe a fazer isso), apenas falo sobre o que ficou exposto. Até mesmo porque um adicto não consegue usar escondido por muito tempo.

No início, ainda tentou me esconder, mas eu já sabia que ele estava na ativa. Ele conversava comigo, dizendo que já tinha comparecido no Juíz o e mesmo adiou a Audiência e que pretendia voltar para a CT aqui onde estava. Eu disse que ele tinha que ficar lá, que era para ele parar com esse negócio de institucionalizar-se, que já bastava de tanta internação e prisão, que ele tinha que trabalhar para cuidar dos filhos, etc.

A princípio, ele ainda relutou, mas quando ele percebeu que eu não queria mais ele aqui perto de mim, ele concordou que iria ficar por lá mesmo.

Na real, na real, não era que eu não queria ele aqui perto de mim. A verdade era que ele estava mentindo, estava usando e queria tentar me fazer de besta. Então, enquanto ele não falasse a verdade, não tinha como eu ajudá-lo. A iniciativa tinha que vir dele. Recuperação de dependência química requer total honestidade consigo mesmo. E ele não estava conseguindo ser honesto com ele mesmo.

Foram poucos dias para que tudo ficasse transparente. Ou melhor, ficasse tudo sujo. Ele estava recaído, usando e já aprontando novamente.

Como eu havia dito que não queria que ele voltasse, ele então manipulou a esposa, a qual há havia reatado o casamento, e arrumaram lá a passagem dele e mandaram ele de volta para cá. 

Certo dia, estou eu na porta do grupo, com minha irmã e minha filha, quando elas olham e dizem: "Olha quem vem ali!".

Quando olhei, lá vinha ele!

Uma bolsa nas costas, uma sacola enorme de pão (Acho que tinha umas três sacolas com uns 30 pães). Até hoje não sei pra que, mas acho que ele pretendia vir direto para a comunidade terapêutica.

Quando ele chegou perto, as meninas abraçaram ele e foi aquela alegria (entre ele e elas). Já eu.... (Só em lembrar, já bate a tristeza novamente).

Apenas olhei e perguntei:"-O que houve?"

-Nada! -Respondeu ele.
-Como nada?!?! E tu veio fazer o que aqui? - Indaguei já em tom de voz diferente.
-Oxente! Vim passear. Posso não, é? 
- Passear?!?!!?!    E aqui é a Disney ou algum lugar de passeio?  - Perguntei já estressado e furioso.

Nessas alturas, todos já percebiam que eu não estava nada alegre com a chegada dele, inclusive ele mesmo percebeu e disse:

-Agora eu vi. Se eu soubesse, não teria vindo.

"Se eu soubesse...". Como "se eu soubesse"? Eu deixei bem claro que eu não queria que ele viesse. Ele sabia disso, sim. Eu falei diretamente para ele quando ele ainda estava lá. Agora ele vem com essa "se eu soubesse., não teria vindo".

-Se eu soubesse, não.... Você sabia, sim. Eu falei para você ficar por lá mesmo. - Disse-lhe já alteradamente.

O pessoal percebeu que não iria dar certo aquela conversa naquele momento e chamaram para entrar, pois já estava para começar a reunião.

Entramos todos. Durante toda a reunião, meu sangue fervendo. Minha cabeça rodada. Muitas coisas passaram. Comecei a me questionar o por que que minha Mãe e a esposa dele não haviam me ligado para dizer que ele estava vindo. Comecei a ficar com raiva delas. Cheguei a dizer para minha companheira que não iria mais nem atender os telefonemas delas. A insanidade já estava se instalando em mim novamente.

Ao final da reunião, fui chamado para fazer uma leitura de nossa Literatura. Coincidentemente, o texto abordava honestidade. Daí eu aproveitei para fazer aquela velha crítica. (Sei não talvez não fosse o momento, mas eu fiz mesmo assim).

Ao término da reunião, fomos discutindo todo o caminho de volta para casa. No outro dia, já comecei a fazer besteira. Admito que tive atitudes e comportamentos que não deveria ter. Mas finalmente consegui levá-lo novamente a comunidade terapêutica e segui minha rotina de trabalho "normalmente", se é que posso dizer normalmente.

Poucos dias já estava recebendo reclamações dos monitores. Meu irmão não estava mais com o mesmo comportamento de antes. Fui levantar as informações e descobri o motivo: simplesmente ele estava dizendo que não havia recaído e que havia retornado apenas para terminar o tratamento dele, quando, na verdade, toda a CT já sabia da verdade. Ele achava que ninguém estava sabendo e queria ter os mesmos direitos que tinha antes, por já ter passado pela fase inicial da internação. Porém, como a direção da casa já sabia da verdade, estava aplicando a ele a mesma regra dos recém chegados, o que ele não admitia e dizia que todos estavam contra ele.

Conversei com ele, mas não adiantou. Ele começou a dizer que queria ir embora. Mas eu não iria dar o dinheiro e agora a esposa dele também não mais apoiava. Então ele não tinha como ir. Pelo menos sem dinheiro ele não tinha como ir.

Foi quando ele começou a aprontar. Uma destas "aprontações", ele saiu da casa, pegou um taxi lotação que tem no município e furtou o celular do motorista. Isso deu uma confusão enorme. Eu estava numa cidade próxima e tive que sair as pressas para lá. Foi uma loucura!

Poucos dias depois, ele saiu de vez da CT. Foi atrás de uma companheira nossa da Irmandade, dizendo que minha Mãe iria mandar um dinheiro, mas que ele estava precisando de dinheiro naquela hora para comprar a passagem dele e tals. Mas ela já estava avisada de que não deveria dar dinheiro para ele, então, ela não deu.

Me ligaram dizendo que ele havia saído e onde haviam deixado ele. Rapidamente corri para lá. Era no trabalho desta companheira, a qual me disse que ele havia passado por lá e agora estava a caminho de minha casa.

Corri para casa e ao chegar, vi a porta semi aberta. Ao entrar, me deparo com ele sentado no chão, costurando uma bolsa (mochila) de costas. Olhei para ele e simplesmente perguntei:   -Eai? Qual foi?

Ele levantou a cabeça e me perguntou, quase já sabendo a resposta:
-Posso ficar aqui até as cinco horas, que eu vou pegar o ônibus nesse horário? (isso eram aproximadamente umas 10:00hs).

Nessa hora, deu uma raiva tão grande, mas tão grande, que fechei os olhos, dei uns passos para dentro de casa, para sair da porta e respirei profundo.

- Não! Tem não! Pode sair agora mesmo! - Respondi.


Sei que fui duramente criticado por ter tido esse comportamento. Reconheço que fui duro demais, mas em dependência química, o emocional não funciona, não. Ou agimos com o racional, ou simplesmente somos vítimas de nossa co-dependência.

Confesso que chorei. Chorei por dentro e por fora. Nunca imaginei ter que colocar meu irmão para fora de minha casa.   Ele que estava tão distante da família, não tinha nenhum parente ali por perto... Pra onde ele iria? Aonde ele iria ficar?

Antes dele sair, tivemos ainda uma discussão. Ele disse-me umas coisas que eu não queria ouvir e eu disse outras que ele também não queria ouvir. Após alguns minutos de tensão, ele pegou as coisas dele, falou com minha irmã, se despediu dela e saiu. (Cabe aqui dizer que minha irmã tem apenas 15 anos, é cheia de problemas e está morando comigo.)

Passei muitos dias tentando escrever esta postagem, mas toda vez que chegava neste ponto, a emoção falava mais alto e não conseguia escrever. 

Já se passaram alguns dias que isso aconteceu. Neste dia em que ele saiu de casa, após alguns instantes dele sair, eu abri a porta e o vi sentado na calçada de frente. Estava sozinho, cabisbaixo. Me aproximei dele, na tentativa de um diálogo, mas ele foi logo alterando a voz e dizendo que não era nem minha mulher, nem minha filha e nem minha rapariga para eu falar gritando com ele. E disse-me ainda que se eu continuasse falando alterado com ele, a gente iria se estranhar.

Nesse momento, mais uma vez eu perdi a cabeça. Disse-lhe que fosse embora dali, pois eu iria chamar a polícia para ele. Disse ainda que iria encaminhá-lo para o presídio da capital e que lá ele iria ficar um bom tempo, pois eu mesmo iria ser testemunha de acusação contra ele. Falei até e matá-lo, se ele continuasse falando merda ali comigo.

Após alguns instantes, percebi que estava agindo feito louco. Percebi que eu estava tendo comportamento de quem está na ativa. Reconheci que estava passando dos limites e resolvi entrar.

Ele saiu. Eu fiquei chorando lá na cama. Minha cabeça queria me culpar. Eu que coloco até estranho dentro de minha casa, agora estava expulsando o meu próprio irmão.  Quem era eu para fazer isso?

Mas eu sabia que estava tentando fazer o certo. Eu sabia que estava agindo como deveria agir, por mais estranho que parecesse. Eu não podia permitir que ele mesmo continuasse se enganando. Ele teria que cair na real e admitir que estava precisando de ajuda. Caso ele quisesse ficar lá em casa para se tratar, não tenho dúvidas de que eu teria permitido. Mas para ficar lá em casa e usando drogas e pegando minhas coisas para vender, jamais permito isso.

Com estes pensamentos, fiquei o restante do dia até que, por volta das 23:00hs, recebi um telefonema dizendo que ele estava na casa da irmã da proprietária da comunidade terapêutica, mas estava lá usando drogas com o sobrinho dela. Detalhes: esta casa já não tem mais nada dentro, somente mesmo as paredes. E este dito rapaz da casa já havia tido uma polêmica com meu irmão, pois tempos atrás, quando meu irmão estava ainda de boa na comunidade terapêutica, esse rapaz teve uma crise de abstinência e quebrou tudo dentro de casa e queria matar a Mãe dele, daí chamaram os internos da casa para segurá-lo e amarrá-lo. Meu irmão foi um dos que participou dessa contenção. Então isso gerou uma certa raiva por parte do rapaz para com todos os que amarram ele.

E agora meu irmão estava lá usando drogas com ele, altas horas da madrugada.

Quando me ligaram, me chamaram para ir lá tirar ele de lá, pois sabiam que poderiam eles se estranharem e a família do rapaz temia meu irmão fazer alguma mau a ele ou vice-versa.

Eu estava com minha irmã e outra amiga quando o carro chegou para nos apanhar e ir lá no recinto. Entramos e lá estavam uma turminha no quintal. A casa dava arrepios ao entrar. Eu lembrei do apartamento em que morávamos, que teve o mesmo fim.

Após várias tentativas, retornamos para casa, sem êxito na missão. Ele não queria vir. Preferiu ficar por lá.
Não tínhamos muito o que fazer, a não ser orar e entregar tudo nas mãos do PS.

Quase não consigo dormir nessa noite. Nem preciso dizer como estava me sentindo.

No outro dia, me ligaram dando notícias dele. Ele estava numa cidade próxima, na empresa de uma amigo nosso, o qual é mantenedor da comunidade terapêutica. Esse nosso amigo queria saber se podia ajuda-lo, comprando a passagem de volta para casa. Eu falei que não seria bom ele fazer isso, pois a esposa dele não mais queria ele e nem eu queria que ele fosse para perto de minha Mãe.

Ele deu dormida e comida para meu irmão, que a essas alturas já estava debilitado.

Entrei em contato com a esposa dele e ela resolveu dar mais outra oportunidade. (Sempre digo que esposas de adicto são mesmo uma heroína. Quando morrerem, vão para o Céu de tripa e tudo. Já pagaram todos os pecados aqui na terra.)

Resumindo: a passagem dele foi comprada. Eu estive lá na cidade no outro dia pela manhã. Me encontrei com ele no hotel. Conversamos alguns instantes. Pedi desculpas pelo que fiz, mas expliquei a ele os motivos. Desejei-lhe uma boa viagem e que ele colocasse a cabecinha no lugar, pois já estava grandinho demais para fazer besteira.

Ele partiu. De lá para cá, não mais falei com ele diretamente. Apenas tenho conhecimento de que ele está melhorzinho. Está tomando medicação. Está trabalhando. Sempre vejo fotos dele postando no tal de facebook. Ele ainda curti algumas fotos minhas e esses dias, excepcionalmente nesse dia, ele deixou um recadinho no meu facebook, pois era meu aniversário.   Mas não mais nos falamos. Acredito que ele ainda esteja ressentido comigo.

Quanto a mim... Não quero carregar culpa. Esse sentimento de culpa não me ajudará em nada, pois tenho consciência de que tentei de todas as formas e quando um familiar tem uma decisão dessa, certamente não há nada mais a fazer. Foram várias as tentativas e várias vezes o acolhi. Mas das outras vezes ele admitia que estava querendo se tratar ou, quando não admitia que precisava de ajuda, mas pelo menos não mentia dizendo que não estava usando. Enquanto que desta vez estava sendo diferente. Ele estava usando e mentindo, tentando esconder para ele mesmo a verdade. E as consequências disso já estavam indo longe demais e estava me prejudicando.

Hoje eu vejo que foi a coisa mais certa que eu fiz. Ele estava mesmo precisando desse tratamento. Talvez se não tivesse dito para ele ir embora, ele estava ainda usando minhas coisas para adquirir drogas.

Peço desculpas pelo longo texto. Também não recomendo ninguém a expulsar seus familiares de suas casas.
Esse depoimento é meu, foi a minha experiência, que não necessariamente pode servir para você está lendo e passando pelo mesmo problema.

Mas de uma coisa de lhe garanto: EM DEPENDÊNCIA QUÍMICA, O EMOCIONAL NÃO FUNCIONA. TEMOS QUE AGIR CONFORME O RACIONAL.

Eu agradeço ao meu Poder Superior pela Dádiva de passar mais um dia "limpo". Está chegando o dia de renovar mais um ciclo anual em minha sobriedade. Faltam 4 dias para meus 19 anos de abstinência. Entretanto, viverei este meu momento como o mais importante para mim, pois para que eu consiga completar meus 19 anos, terei que passar mais 24hs.

Um forte e carinhoso abraço a cada um de vocês.
Meu muito obrigado por fazerem parte de minha vida. Sem vocês, eu não teria conseguido me recuperar.

Até a próxima postagem!

Continuo sendo o Júnior, um adicto em recuperanção, "limpo, só por hoje".

TAMUJUNTU.